Não seja mais um tijolo no muro

Updated: Aug 6, 2021





No final da década de 1970, a famosa banda Pink Floyd lançava seu antológico álbum The Wall, conceitualmente uma ópera rock cuja narrativa explorava tanto o abandono quanto o isolamento de seu protagonista, Pink. A vida do personagem transcorre, servindo metaforicamente, para a construção de uma parede simbólica - O muro!


Todas as canções são baseadas na vida de Pink. Inicia em sua infância, atormentada pela morte do pai na Segunda Guerra, passa pelos traumas escolares - provocados por abusos de professores; chega à saga de sua delirante estrada como estrela do rock até a decadência psicológica após infidelidades, excesso de drogas e a dispersão para o radicalismo de extrema direita . Todos esses episódios culminam, então, na formação do muro que isola o personagem do mundo e de si .


O álbum fez tanto sucesso que no início da década de 80 foi levado para as telonas . Lá se vão mais de 40 anos e, olhando em minha volta, vejo que o sistema opressor cantado pelo rock progressivo de David Gilmor e Roger Waters, bem como o filme mostrado no cinema sob a direção de Alan Parker, parece muito, muito atual.


Eu poderia dissecar cada faixa dessa obra e associá-la ao triste presente político, social e comportamental no qual estamos inseridos. Mas meu lado educadora grita mais alto. Então, vou me deter a umas das canções mais conhecidas do álbum: Another Brick in The Wall (Mais um tijolo no muro). Obviamente que a comparação não se evidencia de forma tão objetiva, afinal, não temos mais palmatórias, castigos, opressão autoritária do professor, não temos mais "dark sarcasm in the classroom" (sarcasmos em sala de aula) . Opa, temos sim!


É fato que o "politicamente correto" obrigou a serem silenciadas as piadinhas sexistas e os esculachos aos "diferentes" - muito comum até o início dos anos 2000; mas elas só se disfarçam numa violência simbólica que pouca diferença traz do professor da ficção de Parker, quando o mestre humilha seu aluno por esse estar lendo livro de poesias. Hoje talvez, aquele professor sarcástico e opressor dissesse: " isso não cai no vestibular, não perca tempo com isso! Não queira ser diferente, pois todos farão uma prova final que medirá o quão eficiente é nosso sistema de ensino!".


E o que fazer com quem gosta de escrever poesias, tocar um instrumento, dançar, cantar? Simplesmente, esqueça! O sistema continua impelindo todos a formar o imutável muro social. Não se trata aqui de revolta contra sistema capitalista e tão pouco aos processos seletivos , até porque faço parte dos que abrem caminho para esse fim.


Porém, o dilema está justamente aí. Não deveria ser um fim. O conhecimento não pode ser um fim em si. Ler e escrever não pode se limitar a ações que se encerram ao fim de uma prova. Não deveria, mas é assim que muitas escolas e professsores estão conduzindo o que nós, humanos, temos de tão maravilhoso: a capacidade de conhecer o mundo pela palavra e também construir o mundo por ela.

Mas não é assim que a banda toca: ensinar redação, por exemplo, virou um amontoado de "fórmulas", de palavras decoradas para "impressionar" um banca qualquer. Escrever um bom texto tornou-se "copiar modelos" de quem tirou um notão na prova nacional. E aí multiplicam-se os gurus da linguagem, amplificando em suas publis : " como fazer redação sem saber nada do tema" ou "decore citações filosóficas para colocar na sua prova e demostrar o quão culto você é ". Quem está enganando quem nessa ópera de horrores?


Não há exageros. Há horror quando se retira do aluno-ser-candidato-humano a possibilidade de aprender, criar, recriar, experimentar a palavra, pensar, ler, relacionar suas experiências intelectuais e produzir textos e não reproduzir textos.


Podem me chamar de obsoleta nesse novo mercado da escrita, mas, se depender de mim, aluno não vira tijolo para construir a hipocrisia educacional, como magistralmente contado na história de Pink. Se depender de mim, aluno vai crescer para quebrar os muros da ignorância ou pular bem alto o muro do charlatanismo. Se depender de mim, continuarei cantando, " Hey, teacher, leave them kids alone!".






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