UNESP 2021




Texto 1

Tempo é dinheiro.

(Provérbio inglês, já prefigurado numa frase de Teofrasto [372 a.C.-287 a.C.], filósofo da Grécia Antiga.) (Paulo Rónai. Dicionário universal de citações, 1985.)


Texto 2


Lembra-te que tempo é dinheiro. Aquele que com o seu trabalho pode ganhar dez xelins1 ao dia e vagabundeia metade do dia, ou fica deitado em seu quarto, não deve, mesmo que gaste apenas seis pence para se divertir, contabilizar só essa despesa; na verdade, gastou, ou melhor, jogou fora cinco xelins a mais.

(Benjamin Franklin [1706-1790]. Conselho a um jovem comerciante, 1748. http://founders.archives.gov.) 1xelim: até 1971, quando ainda estava em vigor no Reino Unido, um xelim equivalia a 12 pence.


Texto 3




Vi quem só andava com o mesmo chinelo Com o preço de uma casa no seu sapateiro Olhei pro braço dos cria, tá geral de Rolex Finalmente pude entender porque tempo é dinheiro (Djonga [1994- ]. “Hoje não”. Histórias da minha área, 2020.)




Inventamos uma montanha de consumos supérfluos. Compramos e descartamos. Mas o que estamos gastando é tempo de vida. Quando eu compro algo, ou você compra algo, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ganhar aquele dinheiro. Com uma diferença: a única coisa que não se pode comprar é a vida, a vida se gasta. (José Mujica [1935- ]. Human [documentário de Yann Arthus-Bertrand],

2015.


Uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamin Franklin “Tempo é dinheiro”. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida. É esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velho, daqui a 20 minutos eu estou mais próximo da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo, esse tempo pertence a meus afetos. (Antonio Candido [1918-2017]. www.cartamaior.com.br, 08.08.2006.)


Com base nos textos apresentados e em seus próprios conhecimentos, escreva um texto dissertativo-argumentativo, empregando a norma-padrão da língua portuguesa, sobre o tema:


Tempo é dinheiro?




COMENTÁRIO


A prova de redação da Unesp de 2021 seguiu a tradição da banca de requisitar uma dissertação acerca de um tema atual em forma de pergunta: “Tempo é dinheiro?”. A coletânea trouxe seis textos de gêneros diversos que forneciam subsídios pertinentes para diferentes posicionamentos, o que possibilita uma avaliação consistente da capacidade de formulação de uma visão crítica sobre a sociedade contemporânea.


Análise da proposta

O texto 1, retirado de um dicionário de citações, informa que a frase temática é um provérbio inglês já aludido pelo filósofo Teofrasto, da Grécia Antiga.

O texto 2 é um trecho do ensaio “Conselho a um jovem comerciante”, do político e escritor Benjamin Franklin, que teve parte importante na formação dos EUA. Comentando o provérbio, Franklin vincula o tempo ao trabalho e aos ganhos financeiros, ao considerar que deixar de trabalhar para “vagabundear” ou ficar deitado equivale a jogar fora o dinheiro que poderia ter sido ganho no mesmo período.

O texto 3, uma charge de Mark Anderson, em inglês, traz um personagem numa mesa que se assemelha à de um chefe dizendo, ao que parece ser um funcionário, “Tempo é dinheiro – peça mais relógios”. Com humor, o texto faz menção ao relógio como elemento de controle do tempo e, por extensão, das possibilidades de ganho financeiro.

O texto 4, um trecho do rap “Hoje não”, do cantor e compositor Djonga, ironicamente identifica o sentido da expressão “tempo é dinheiro” com a posse de um Rolex. O contexto da letra trata da ascensão social de jovens da periferia em meio a preconceitos de classe e raciais, em que objetos de consumo de luxo aparecem como sinais de empoderamento.

O texto 5, uma fala do ex-presidente uruguaio José Mujica, critica a maneira como, em uma sociedade do consumo, o tempo é empregado para obter mais bens de consumo, associando o valor dos objetos ao tempo gasto para trabalhar e adquiri-los, enquanto, na verdade, a própria vida não poderia ser objeto de compra.

O texto 6, do crítico literário brasileiro Antonio Candido, considera o dito atribuído a Franklin como uma “monstruosidade”, no sentido de que, em vez de se reduzir a dinheiro, o tempo seria o “tecido da nossa vida”. A passagem do tempo e a finitude da vida humana fariam com que o tempo devesse ser reconhecido como um direito a ser exercido de acordo com nossos afetos.

Encaminhamentos possíveis

A apresentação do tema em forma de uma pergunta que permite as respostas “sim” ou “não” exigia do candidato a apresentação de uma resposta clara, a constituir sua tese acerca da questão posta em debate. Contudo, a natureza do problema envolvia posicionamentos mais complexos, que permitiam, feita a resposta clara à pergunta, a elaboração de nuances sobre a questão.

Assim, entre os encaminhamentos que poderiam resultar em diversas formulações de teses distintas, destacam-se

Sim

  • O tempo é dinheiro no sentido positivo atribuído por Franklin à expressão, ou seja, de que é importante tomar o tempo como associado ao trabalho e à produtividade, rejeitando modos de vida centrados em outros valores;

  • Nesse sentido, o fato de o provérbio remeter à Grécia Antiga mostraria que se trata de um valor que, de certa forma, transcende a realidade capitalista e consumista, e por isso estaria relacionado a um modo válido de forma de vida;

  • O tempo é dinheiro no mundo contemporâneo, o que estaria presente na disposição das pessoas de gastar o que ganham a partir do tempo que se leva no trabalho como valor a ser trocado por objetos de consumo muitas vezes inúteis;

Não

  • Apesar de realmente ser tomado como dinheiro no mundo contemporâneo, o tempo pode ter um valor muito mais amplo para o ser humano. A ideia de restringir o tempo a dinheiro implicaria, assim, restringir a vida humana ao trabalho, ou, mesmo, ao consumismo, muitas vezes associado à busca de objetos inúteis e associados à valorização social pela ostentação.

  • Nesse sentido, era possível tratar do conceito de modernidade líquida, do sociólogo Zygmunt Bauman, para quem a sociedade do consumo envolve uma promessa nunca realizada de felicidade, já que o consumidor sempre será estimulado a comprar novos objetos (o que implicará no emprego de seu tempo para obter recursos ao consumo);

O tempo não deve ser tido por dinheiro tendo em vista as consequências negativas para os indivíduos que vivem sob esse princípio. Nesse sentido, é possível pensar no conceito de sociedade do cansaço (Byung-Chul Han), realidade em que a vida se torna uma corrida por maior desempenho e eficiência, com o tempo sendo visto como algo a ser usado para aumento de produtividade, apenas, o que ocasionaria a realidade psicológica atual de esgotamento mental e de transtornos psiquiátricos.


(https://angloresolve.plurall.net/)

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