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VIOLÊNCIA CONTRA MULHER:

Quando a música propaga essa cultura



A cultura popular costuma ser vista como espaço de expressão artística e entretenimento. No entanto, ela também funciona como registro histórico de valores sociais. Ao observarmos a música brasileira ao longo do tempo, é possível perceber algo inquietante: por décadas, diferentes gêneros musicais reproduziram narrativas que normalizam a violência contra a mulher.

 

Essas letras foram cantadas no rádio, repetidas em festas populares e até ensinadas a crianças. Muitas delas continuam circulando hoje sem que seus significados sejam questionados. Em um momento em que o feminicídio ganha proporções alarmantes e mulheres se tornam alvo de grupos misóginos, refletir sobre a naturalização da violência presente em certas letras musicais deixa de ser apenas um exercício cultural: torna-se um dever social.

 

Na era do rádio...


Nas décadas de 1930 e 1940, quando o rádio se consolidava como principal meio de comunicação de massa no Brasil, algumas canções populares já apresentavam narrativas em que a agressão masculina aparecia como parte natural das relações amorosas.

 

A música Mulher de Malandro (1932) tornou-se um exemplo emblemático desse tipo de representação. Em um de seus versos mais conhecidos, a letra afirma:

 

“Mulher de malandro sabe ser

Carinhosa de verdade

Ela vive com tanto prazer

Quanto mais apanha

A ele tem amizade”

 

O trecho revela uma lógica profundamente problemática: a violência aparece associada à própria ideia de amor e fidelidade.

 

Na mesma época, composições de artistas consagrados também traziam referências semelhantes. Canções do período frequentemente retratavam relações marcadas por ciúme, controle e punição feminina.

 

 

Quando a violência entra na música infantil

 

O fenômeno não se limita à música adulta. Algumas cantigas transmitidas entre gerações também incorporam narrativas violentas.

 

A tradicional O Cravo e a Rosa, ensinada a crianças em todo o país, descreve um conflito em que a personagem feminina termina “despedaçada”. Apesar de ser cantada em tom lúdico, a letra revela como a violência pode ser naturalizada desde cedo no imaginário cultural. E é assim, desde cedo, que gera-se no inconsciente coletivo valores perigosos, como o machismo e a violência que ele transmite.

 

Outro exemplo aparece na música Maria Chiquinha (1961), popularizada entre crianças brasileiras nas décadas seguintes. Em tom aparentemente humorístico, a letra apresenta uma ameaça explícita de assassinato da personagem feminina.

 

O crime passional romantizado

 

Contar (e cantar) a vingança masculina também aparece em canções sertanejas clássicas. Um dos exemplos mais conhecidos é Cabocla Tereza (1940). Na música, o narrador descreve o assassinato da companheira após suspeita de traição:

 

“Senti meu sangue ferver

Jurei a Tereza matar…”

 

Durante décadas, histórias desse tipo foram interpretadas como dramas românticos ou tragédias passionais, e não como manifestações de violência de gênero.

 

A violência que vira ameaça explícita

 

Nas décadas seguintes, algumas letras passaram a expressar de forma ainda mais direta a lógica da posse e da punição feminina. Na música Se Te Agarro com Outro Te Mato (1982), o próprio título já expressa a ideia de que o relacionamento amoroso justifica a violência extrema. Além disso, o refrão chama atenção para outra questão gravíssima, a impunidade! A certeza de que o crime em nada afetará a vida do homem.

“Se te agarro com outros te mato Te mando algumas flores e depois escapo.”

 

Anos depois, no samba Faixa Amarela, surge novamente a ameaça física como forma de punição à mulher considerada infiel. Aqui, nosso querido Zeca Pagodinho e tantos outros em rodas de samba cantam “Mas se ela vacilar

Vou dar um castigo nela

Dá-lhe uma banda de frente

Quebrar cinco dentes e quatro costelas

 

Da naturalização à banalização

 

Mais recentemente, determinados contextos musicais passaram a reproduzir de forma ainda mais explícita discursos de objetificação feminina e violência sexual.

 

Um episódio que gerou grande repercussão pública foi a circulação da música Surubinha de Leve (2018), cuja letra fazia referência direta à violência sexual. O caso provocou intenso debate sobre os limites entre expressão artística, responsabilidade social e banalização da violência. Mesmo diante do debate, a “liberdade de expressão” masculina continua reproduzindo discursos de desprezo, ódio e violência.

 

Por que olhar para essas músicas importa

 

Observar essas letras em perspectiva histórica não significa condenar toda a produção musical brasileira. O objetivo é compreender como determinadas ideias foram normalizadas culturalmente, pois elas reproduzem o meio, os valores e as crenças de uma sociedade.

 

Durante muito tempo, cantamos essas músicas sem questionar seus significados. Crianças aprenderam cantigas violentas como se fossem apenas brincadeiras. Adultos repetiram letras que associavam amor, ciúme e agressão.

 

Embora saibamos que a  cultura não cria a violência sozinha , ela  pode ajudar a torná-la invisível. Por isso, desenvolver uma escuta crítica é fundamental. Afinal, as músicas que cantamos também revelam muito sobre a sociedade que construímos.


Fica, então, o questionamento: Qual sociedade queremos (des)construir ?


 
 
 

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