Receita de escrita não garante autoria
- ComTexto

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Por que não existe fórmula pronta para escrever um bom texto

Se você escreve redação há algum tempo, provavelmente já ouviu promessas como: “Use esse modelo e garanta uma boa nota” ou “tenha sempre um repertório coringa para qualquer tema”. Essas fórmulas parecem tranquilizadoras — afinal, diante da folha em branco, qualquer estrutura pronta soa como alívio. O problema é que alívio não é autoria.
Modelos de escrita organizam, mas não pensam por você. E escrever bem exige, antes de tudo, pensar o texto.
O mito da receita de escrita
Receitas funcionam quando o objetivo é repetir um resultado previsível. Na escrita, especialmente na redação de vestibulares, isso se torna um risco. Quando você segue uma fórmula engessada:
a introdução já nasce genérica;
os argumentos tendem a ser previsíveis;
o repertório aparece “forçado”, apenas para cumprir tabela.
O texto até pode parecer correto na superfície, mas falta algo essencial: uma voz que dialogue de fato com o tema.
O que as bancas realmente avaliam
O ENEM é um bom ponto de partida para entender esse problema. Nas Competências II e III, não se avalia apenas se você “preencheu” um modelo, mas se:
você compreendeu o tema, fez um recorte consciente e soube problematizá-lo;
você construiu um projeto de texto coerente, com progressão de ideias e escolhas justificáveis.
Quando o texto nasce de uma receita pronta, essas competências ficam fragilizadas. O corretor percebe quando a estrutura está ali, mas o pensamento não acompanha.
Por que modelos prontos prejudicam também nos vestibulares
Vestibulares, em geral, esperam algo muito parecido: clareza, coerência e domínio do tema. O uso excessivo de modelos gera efeitos recorrentes:
textos que poderiam ser escritos por qualquer pessoa;
argumentos intercambiáveis entre temas diferentes;
repertórios “coringa” que pouco dialogam com a proposta.
O resultado é um texto correto, mas sem identidade — e isso pesa na avaliação.
Se não há receita, o que existe?
Existe processo.
Autoria não nasce do improviso nem da repetição cega. Ela se constrói com:
leitura atenta do tema;
tempo para pensar antes de escrever;
escrita consciente;
reescrita orientada.
Escrever bem não é decorar fórmulas, mas aprender a tomar decisões no texto. Receitas podem até parecer eficientes no começo, mas não sustentam um projeto de escrita sólido.
Dicas para encontrar a sua autoria
Autoria não significa escrever de forma rebuscada nem “inventar moda” no texto. Ela aparece, muitas vezes, em escolhas simples — mas conscientes.
1. Observe como você qualifica suas ideias. O uso de adjetivos e advérbios revela muito do seu posicionamento. Quando você escolhe dizer que algo é grave, recorrente, insuficiente ou socialmente naturalizado, não está apenas descrevendo um fato, mas interpretando a realidade. Essas escolhas linguísticas ajudam o corretor a perceber como você lê o mundo.
2. Leve para o texto a pergunta: “o que eu penso sobre isso?” Antes de escrever, vale parar e refletir:— Qual aspecto do tema mais me chama atenção?— Onde está o problema central, na minha leitura?— O que me incomoda nessa situação? — O que eu conheço sobre esse tema?
Esse exercício não é opinativo no sentido raso da palavra. Ele ajuda você a organizar um ponto de vista, que depois será sustentado com argumentos e repertório.
3. Entenda que autoria também está na forma de argumentar. Dois textos podem defender a mesma tese e, ainda assim, serem completamente diferentes. A diferença está na seleção dos argumentos, na forma de encadeá-los e nas relações que você estabelece entre ideias. Autoria não está no “o quê”, mas no “como” você constrói o raciocínio.
Bora tomar a coragem de encontrar o seu próprio texto?





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